Com a necessidade imperiosa de isolamento social, uma parte dos trabalhadores e trabalhadoras foi para casa, assim como crianças, adolescentes e adultos que tiveram suas atividades educacionais presenciais, suspensas, ampliando novas formas de trabalho: o home office, trabalho em meios digitais, teletrabalho, trabalho remoto, ensino remoto, dentre outros.

 Os impactos no trabalho docente foram inevitáveis: falta de familiaridade com certas ferramentas digitais; transformação do espaço privado em espaço de ensino; mudança da rotina familiar, sobrecarga de jornada com intensificação e maior precarização do trabalho docente.

Educadores “se reinventaram” sob o uso das tecnologias digitais de informação e comunicação. Webinários, lives, palestras on-line, cursos de formação, fóruns, orientações de trabalhos de conclusão de curso, defesas de trabalhos de conclusão de curso, orientações de projetos de pesquisa, web reuniões de conselhos de faculdades e de escolas.

Pesquisa Nacional do Grupo Parent in Science, revela que mulheres-docentes-pesquisadoras tiveram queda em sua produção científica. Comparando a produção, 68,7% dos homens conseguiram submeter Artigos contra 49,8% das mulheres. As que conseguem manter sua produção, relatam que trabalham de madrugada quando seus filhos dormem e podem usufruir de um ambiente silencioso. No entanto, no dia seguinte estão cansadas e têm que dar conta da rotina que garantirá a segurança de sua família.

Houve aumento de 22,2% na violência doméstica, por muitas razões que continuam sendo investigadas. Em parte, pelo comportamento de seus companheiros, fruto da cultura patriarcal e machista, que não dividem os afazeres domésticos e de proteção à saúde. 

Plenária "Educação em tempos de pandemia: Limites e desafios para as trabalhadoras da educação” reuniu professoras em evento online

A professora Edivania Alves, da Universidade Federal do Pará e diretora sindical (Adufpa/UFPA), saudava a Plenária de mulheres, e quando falava sobre a sobrecarga vivida durante a pandemia, foi surpreendida por seu telefone tocando. Já a professora Joselene Mota, também da UFPA e diretora da Associação Nacional dos Docentes Sindicato Nacional (Andes-SN) ressaltou que várias mulheres participaram da Plenária com crianças no colo e que em determinados momentos se justificavam avisando que ‘estavam participando da Plenária’ ao serem questionadas por alguém que se encontrava no mesmo ambiente físico que elas. 

Ao ser perguntada por WhatsApp sobre a importância do evento “Educação em tempos de pandemia: Limites e desafios para as trabalhadoras da educação”, que aconteceu nesta quinta-feira, 25 de Março, em formato online, Joselene desabafou “eu me empolguei depois de fazer café, ajudar menino a fazer prova online, colocar roupa pra lavar (o sol tá bom! - sic), tirar comida do congelador, e enfim, sentar para responder a pergunta” (risos).

Esses são alguns exemplos de como as mulheres estão vivendo sobrecarregadas durante a pandemia de Covid-19. 

Essas inquietações foram a motivação para que as sindicalistas de várias entidades (Adufpa, Regional Norte do Andes-SN, Sinduepa, Sintepp, Sinditifes, Sinasefe, Sindunifespa e Adufra) se encontrassem para pautar temas como precarização e aumento do trabalho no regime remoto de ensino, condições de habitação e saneamento enfrentadas pela mulheres periféricas, combate ao feminicídio, leis que pioram a qualidade do serviço público, racismo, lgbtifobia, entres outros. 

“Ter participado com outras mulheres trabalhadoras da organização da I Plenária das Mulheres da Educação do estado do Pará, foi um grande aprendizado. O atual cenário tem nos imposto condições de trabalho intenso dentro dos nossos lares, aumentando mais ainda nossa jornada. E foi numa conversa informal, sobre o tempo para o nosso autocuidado, que percebemos o quanto precisávamos chamar TODAS as mulheres para um momento de escuta e perspectiva do combate a não naturalização dessas condições que nos precariza, porque de uma coisa nós temos certeza, todas nós sairemos com prejuízo dessa pandemia" continua a professora.

Segundo as organizadoras, a Plenária só foi possível pelo espírito de coletividade e partilha. "Falamos sobre nossas angústias e sobre nossa esperança por dias melhores para as mulheres Educadoras e para todas as trabalhadoras brasileiras. Relembramos que 'eles combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer', parafraseando a grande escritora Conceição Evaristo", completou Joselene.

A plenária reuniu mais de 70 professoras que atuam no ensino público da Educação básica à pós-graduação, inclusive nas carreiras do Ensino Técnico e Tecnológico. Elas deliberaram por um processo permanente de mobilização e estudos em torno dos temas urgentes que envolvem a categoria e também contra o feminícidio e por #vacinaparatodos.

 "Em síntese, o que vem acontecendo nesse período de pandemia é o trabalho “invisível” das professoras sem a contrapartida das instituições em possibilitar condições mínimas para o desenvolvimento do ensino de forma remota" conclui Edivania Alves, Coordenadora Geral Adjunta da Associação de Docentes da UFPA (Adufpa).